A interrupção. Decretada, ordenada, colocada. Parecendo até o fim de absolutamente tudo, mas só é uma pecinha necessária pra que as coisas se ajeitem, mesmo que não para mim. A interrupção do que foi, o que vinha sendo e do que seria foi menos devastador do que se era esperado. A naturalidade de cada ato que dia após dia me diziam tudo o que eu precisava saber mas que eu não conseguia explicar. Tudo era exatamente a beleza e alma do envolvimento que não me deixava ser uma louca indecifrável. Eu ainda era entendível. Eu ainda tinha mistérios para serem desvendados pelo alguém mais observador e paciente que já passou e parou na minha vida, mas que, como todos, foi embora. Mesmo que a presença tenha se transformado em ausência contra a própria vontade e, por isso, dê sempre um jeito de me dizer que não partiu. Partiu. Eu vou chorar toda vez que eu ler o que me foi dito com o intuito de me confortar e perdoar e esperar e relaxar e viver e prevenir e qualquer coisa que me faça ficar bem. Eu não sei se minhas lágrimas são de saudade ou gratidão.
A exagerada importância que eu dou às coisas que se tornam prioridades pra mim é o estopim do prejuízo sentimental que os dias têm a me render. Eu não sei amar tranquilamente. Eu não sei ficar quieta esperando uma falta que parece inexistente. Eu entristeço com a ideia de ter caído no esquecimento. Isso é ser mulher? Eu simplesmente abro mão de toda sensatez que eu me cuido pra ter e não ser machucada por puro devaneio ciumento e inseguro. Por puro receio de não ser suficientemente boa pra alguém cuidar e tudo bem, tudo bem aguentar minhas crises existenciais e me fazer um carinho sincero pra eu não achar que sou aturada de forma superficial. Eu tenho horror a pessoas rasas e eu já perdi as contas de quantas vezes eu já disse isso com medo das pessoas serem rasas comigo. E eu acabo me entregando do mesmo jeito, com a mesma intensidade com todo mundo. Eu tenho total consciência do quanto eu fico boba quando alguém se submete a me entender, desvendar meus mistérios nunca despertantes de muita curiosidade mas de muita inaceitação. Eu vejo e o mundo também vê o quanto eu fico encantada quando encontro alguém que seja um poço de paciência, porque é disso que se precisa quando me conhece. Mesmo que toda a minha existência grite com toda a convicção do mundo que eu sou digna de desistências, tem sempre alguém que fica. Que prefere tentar compreender o que se passa pela cabeça de alguém que tem a descrença à flor da pele e tente todos os dias se manter firme e racional porque tem medo de cair de novo e não ter ninguém pra lhe levantar. Que prefere amparar esse alguém a ir embora porque reconhece que todo mundo precisa de ajuda, muitas vezes humana. Que sabe, lá no fundo, que a gente sempre aprende lições muito boas com alguém, e que esse alguém pode ser a gente pra um monte de gente. Minha dor é não saber confortar a ponto de não ter a presença pedida por causar saudade logo que me mando. Meu choque é perceber a tamanha assistência que eu acho que eu tenho que dar para as pessoas não irem embora da minha vida porque eu vou ficar arrasada se elas forem. Mas eu exagero na dose. Eu erro na dose. E eu sempre acabo embriagada de culpa por ver demais onde não tem muita coisa. E passo um bom tempo tentando dizer a mim mesma quantas vezes forem necessárias o quanto eu preciso agir mais normalmente com o que me surpreende. Mas eu não me escuto. Eu acho que o certo sou eu agir sendo eu mesma. Eu não sei não ser eu.
“De puta, de criança, de maluca, toda mulher tem um pouco. Falo por mim porque vivi pouco tempo para fazer afirmações maiores. Falo por mim porque estou egoistamente presa na minha própria descoberta e existência. Mas pelo que tenho visto por aí, toda mulher tem um pouco de tudo. E como é difícil ser feliz com tantos poucos para agradar. Fora os milhares de hormônios que tornam cada um desses poucos mais do que dá para aguentar. E a cada suspiro, meus poucos se atrapalham: estou feliz ou com medo? Estou cansada ou excitada? Estou carente ou encantada? Estou fria ou fugidia? Numa única noite eu fui um pouco tudo, eu quis um pouco de tudo. Quando alguém vai acompanhar meu ritmo? Eu quis que ele não soubesse meu nome, depois quis ter o dele logo depois do meu. Eu quis que ninguém soubesse de tamanha traição. Depois quis gritar na janela como o proibido era sopro no meu coração. Eu quis sentir o poder de abalar com a vida dele. Depois quis que ele voltasse direitinho pra casa e esquecesse que existe a fraqueza. Eu quis ele por uma aventura, uma risada, uma distração. Depois quis o colo dele para sempre, mas fiquei com o meu pouco puta estampado na cara. Como eu preciso ser amada, meu Deus, pra parar de dar de bandeja o meu sorriso por aí. Eu tenho meu pouco criança estampado em cada linha que escrevo e em cada bobeira que falo na espera de atenção. Maluca? Nas raras vezes que sou séria, me sinto tão maluca, que devo ser sempre maluca. De pouco em pouco encho o papo de ansiedade. Quando o muito virá? Eu nunca poderia ser feliz sem meu pouco trágica. Eu nunca posso estar satisfeita sem meu pouco idealista e eu nunca poderei ser mulher porque ainda falta pouco, muito pouco, mas eu sei que sempre faltará. Me completo de poucos, mas sigo esperando demais de tudo.
Comida para cada um desses poucos que são buracos na minha alma. Meu pouco puta, safada, tarada, não tem um pingo de compostura. Meu pouco criança sofre e se diverte com o meu pouco louca. Meu pouco adulta perdoa tudo porque tem total consciência do meu pouco criança. Mas cada pouco espera o grande momento. A grande virada. O longo suspiro de paz. Cada pouco espera o colo, a excelente trepada, o beijo silenciador de neuroses, o abraço aquecedor de angústias. Cada pouca criatividade espera o salário digno, o carro novo, o cheiro de cada coisa minha conquistada, o sono de quem não deve um centavo a ninguém. Corro no desespero desses dias, da vida que virá, dos sonhos realizados, da felicidade, do sorriso banguelo da pureza infinita de um ser gerado por mim. Da luz. Meu pouco pessimista sabe que nada disso pode acontecer. Mas sigo com meu pouco otimista, aprendendo que ele a cada dia aumenta um pouco.
Quem em cada pouco põe tudo que é merece ser feliz. E muito.”
Tati Bernardi
Nunca achei que um dia iria me sentir mulher demais pra quem me arrancou tantas lágrimas e me fez acreditar esse tempo todo que me fez crescer com a ausência mais macabra com a qual já tive que lidar até hoje. Eu penso em tudo que poderia ter sido e que tipo de pessoa eu seria hoje se eu tivesse tido o retorno que tanto queria. Algumas reflexões minhas me levam a certezas mais que escancaradas, e uma delas é que eu não seria tão racional se tudo aquilo tivesse o proveito que eu sempre pedia que tivesse. Aquela história de volta do anzol sempre me perseguiu e, no passado, eu tinha como hobby as tentativas idiotas de adivinhação de como iria acontecer. Hoje eu posso dizer que a volta do anzol foi muito diferente de como eu sempre pensei que seria. Foi definitivamente impensável. Magnífica. E eu digo isso satisfatoriamente porque foi muito mais bonita que todas as formas nas quais eu já havia pensado. Eu não acredito que exista conserto pro passado. O que acontece está lá, perfeitamente imutável. O que existe hoje é consequência e, se tiver que acontecer alguma coisa, que aconteça agora. Eu cansei de achar que preciso estar me importando e tendo que sacrificar o pingo de orgulho que eu tenho pra que tudo se encaixe da melhor forma. Tenho certeza de já ter feito a minha parte, e até mais do que ela. A voz da minha consciência insiste em dizer que continua sendo a mesma coisa, a mesminha, a mesmíssima de antes. Não mudou nada. Os anos se passaram e continua a mesma merda unilateral que ele jura que mudou. O que mudou? Eu. Porque ele continua sendo a complexidade em vida que vem me causando indiferença. Ele continua dizendo as mesmas coisas e tendo as mesmas atitudes. Ainda abre a boca pra dizer que sabe o que fazer com uma mulher apaixonada por ele! Não sabe. E eu o subestimo porque ele é superficial demais pra quem se diz um homem.
Quem diria que um dia alguém, aqui, neste mundo, em meio a tanta gente querendo sair do fundo do poço, sentiria falta de sofrer. E não é saudade de toda magia escrota que sofrer te faz passar, é só a falta que faz um coração meio bobo. Sofrendo eu tinha a absoluta certeza de ser dona de uma sensibilidade feminina normalíssima que, hoje em dia, eu não tenho mais! Sabe o que é assistir 500 Dias com Ela e não ver descer uma gota de lágrima pra contar história? Sabe o que é assistir Cidade dos Anjos e não sentir aquela certeza de que um dia alguém faria tudo aquilo por você? Sabe o que é assistir Diário de Uma Paixão, Um Amor pra Recordar e todos os filmes dignos de depressão feminina existentes e não ver nexo, não sentir uma carência que toda mulher sente quando assiste, não se sentir uma merda por ser solteirona e até hoje nunca ter tido o privilégio de ter um homem daqueles na sua vida? Não, você não sabe o que é passar por essas coisas porque você já se acaba de chorar assistindo Marley & Eu, o filme que também não faz eu me sentir nem um pouco frágil. É tudo muito contraditório, porque de vez em quando eu me pego odiando toda a frieza que insistiram em atribuir à minha pessoa, mas a sensação de se sentir blindada é única. Há muito tempo eu tô numa fase em que eu não vejo motivo nenhum pra ficar triste. Acho que isso é ser forte. Eu juro que há quem queira se deprimir nos dias de hoje mas não consegue, porque essa pessoa sou eu. Por mais que eu tente derramar uma lágrima sequer pelo fim do amor revigorante, amadurecedor e único verdadeiro que eu tive em toda a minha existência, eu não consigo. Eu tenho mais o que fazer do que ficar juntando cacos e tentando sofrer pelo fim do que nunca teve início reciprocamente. E é aí que eu paro, reflito e me vem à mente: Será que a caralhada toda individualista, tomadora de ar, causadora de ciúme e suor frio e irritabilidade pela complicação realmente teve fim?
Nem foi tempo perdido. Somos tão jovens…
Entrava semana, saía semana e eu ficava torcendo com todas as forças da minha existência pra eu ganhar uma visitinha sua. E lamentava, lamentava, lamentava. Eu só faltava morrer de saudade e você nem sabia. Eu me iludia de que um dia a gente poderia ser da gente. Orgulho não existia, amor próprio não existia. Eu largaria tudo por você se você fizesse o mesmo por mim. Não existia reciprocidade nisso tudo e eu ainda tinha uma esperança enorme de que pudesse dar certo. Tola, não sabia que tinha começado as coisas de maneira totalmente errada. Eu não entendia os fatos, as consequências dos meus possíveis atos, já que aqui, na minha cabeça, pra mim, eu sempre fazia de tudo pra ser a mulher perfeita pra você. Nunca consegui. Por que diabos eu nunca consegui? O que eu fiz de errado dessa vez? Que problema eu tenho? Eram sempre as mesmas perguntas, todas sempre com nenhuma resposta. Pra mim você era o cara mais burro da face da Terra. Você estava me perdendo e nem sabia. E olha aí, perdeu!