Eu fui o “adeus” e foste o “nunca mais”.

Toda uma precaução inicial em me manter justa, justíssima diante do que me é feio e incontestavelmente vergonhoso rendida às breguices mais envolventes no auge de minha vontade de despejar todo meu amor reprimido sobre quem me deu permissão a toda entrega que eu bem entendesse.

No fim do meu mais nobre e confiável investimento, realização da meta mais bonita que alguém pode criar, que é fazer alguém feliz, não fiz parte dos que pelejam na espera de um desgaste relacional. Foi no seco. No duro. No amargo de dar um basta já impaciente, camuflando toda verdade implorada e negada a fim de eufemizar uma dor irredutível, ou simplesmente concluindo uma insensatez doentia inexistente que nunca praticaria em homenagem a caráter alheio, decepcionante a cada palavra.

Fidelidade a meus lutos, como se eles respeitassem minha dor e não rissem de minhas lágrimas. Como se a pena não fosse o sentimento cabível, como se a ingenuidade existisse na esperteza de quem investiga explicações convincentes, a fim de trazer pra si o conformismo, mais uma vez, de ter sido menos do que queria ser.

Pra gente voltar de onde se tem coragem. De onde a pressa é angustia solitária e não um caminhão de lixo que se joga no outro. De onde a insegurança é um gatinho preso numa jaula alta e não um tigre alimentado pelo ego. O amor recém-nascido e alimentado com água pura. Eu estava nele quando você achou que diminuindo seu ritmo você aumentaria suas chances.

Toda angústia é incômoda porque é desesperada e o receio que antecede uma alegria plena é fruto do costume dos próprios carnavais de fins previsíveis e irrelevantes para uma vida. Todo erro que se comete por hedonismo só é enxergado como erro depois de praticado, visto com um inegável oco, silencioso até para quem diz ser suficientemente racional para escutar os sons menos perceptíveis, crente de que não há insensatez que lhe impeça de ser inteiramente justo. Umedeço minha incredulidade dia após dia, completamente extasiada, desconfiada de revira-voltas, voltas por cima e todas essas declarações de autossuperação babacas que sempre tiveram minha repulsa por serem regadas a pieguices do começo ao fim. E, o que muito pasma, o começo e o fim são justamente o que mais assusta e tem nossas maiores resistências.

Saudade precipitada é sentida por assustados, porque só os assustados conseguem definir de antemão o que é uma saudade precipitada. Saudade precipitada é amedrontadora excepcionalmente para os que tentavam fazer de si um poço de autodefesa, que podia ser chamado de frieza, que já se jurava ser propriedade, mesmo que no fundo da própria alma tivesse certeza da sua capacidade de acreditar em tudo outra vez, como todo forte ser humano.

Saudade precipitada é um precipício?

Esqueci meus próprios conselhos fatalmente sensatos em frente ao que é capaz de perturbar meus muros compreensivos que construí sem me vitimizar. Erro incontestável. Teorizar insanidade alheia sem se pôr na pele de quem desfruta de um determinado gênero da própria não fundamenta conclusão universal nenhuma, nem tem direito de ridicularizar ações nessas condições; só subestima toda e qualquer afobação natural e muitas vezes incontrolável que nasce a partir do momento em que se tem que lidar com um trevo-de-quatro-folhas que encontrou e duvida o tempo todo se ele é mesmo o que representa ser, se ele quer mesmo o que diz querer e se questiona esse tipo de coisa cinquenta vezes por minuto, e não é por dúvida de caráter, nem de não saber o que quer, nem por imaturidade, nem por medo, porque eu sou inteira e descobri que ser inteira já é ser muito corajosa. Subentenda minha loucura desnecessária que me falta coragem para confessá-la, compreenda como sempre fez e faça dela o que quiser, ache até bobagem no meio dessa merda de querer tanto me sentir no direito de fazê-lo feliz. 

Meu susto ao me ver tão feliz é tão grande quanto o amor guardado que implora pra ser dissipado, mas que se assegura no mínimo de cautela que me moldo pra ter.

Years and years
  • Years and years

Quem pensa em limitar suas próprias escolhas a partir do que considera inaceitável até para si mesmo e inicialmente se vê incapaz de assumir por superficialidade por si só fútil, tem empecilhos o bastante para ser feliz. Vendo quem já teve tal privilégio e, partindo da humildade suficiente para reconhecer que não é melhor que tal (muito menos pior!), a culpa surra, dá esporros silenciosos dentro de suas próprias certezas, que se levou vastas experiências com o intuito de constituir o padrão de riqueza de cada virtude alheia.

E diz que cansou! E diz que está despedindo-se! E diz que abandonou sua recusa à sua própria permissão de viver o que naturalmente necessita para descobrir suas próprias competências não identificadas. Mas mantém estatizada sua solidão, porque são muito amigas e tudo bem, tudo bem ter que lidar mais um pouquinho, não vai morrer se tomar mais uma dose do que lhe embriaga noite e dia, desde que se entende por gente, suscitando cirrose em desilusão. 

Eis o conforto de quem presencia o raso das escolhas de alguém que é sempre perfeitamente capaz de enxergar a alma alheia: é só precipitação.

Quantas são as suportabilidades em manter certezas sobre si sem sair do próprio corpo fatigado da cegueira alheia? Quais são as diferenças que se acredita ter? A fé de que o nada é permanente bate à porta uma vez e eu abro, porque ela já é de casa.
A lonjura de minhas próprias fases é comandada pelo quê? Sou eu quem grito por cumplicidade ou sou influenciada pela necessidade humana e acabo sendo um desses seres humanos que necessitam sem serem necessitados? Eu passo dos limites da racionalidade com os atos alheios ainda que intolerante pelo êxtase do sentimentalismo? Eu acabaria de qualquer forma desse jeito se não fossem minhas cem mil frustrações? Eu sou mesmo acometida pela insanidade todos os dias quando o que eu devia era ficar quietinha pensando num jeito de ser agradável o suficiente pra ser uma companhia, quem sabe, diária? Eu assusto mesmo quem espera que eu só falte ser canonizada? É tão difícil aceitar a paranoia de quem tem amor por si o suficiente pra hoje em dia, sem receio e autopiedade, dizer com todas as letras o quanto o reconhecimento da maravilha própria é desperdiçada e que o mundo inteiro é muito burro?
O desamor é ainda mais triste quando previsível.

E quando ele sorriu, eu percebi. Eu percebi que estava na merda.